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tEXToS

noite de núpcias, 2019
Appleton square, lisboa

UMA CABEÇA DO TAMANHO DE UM QUARTO (DE NÚPCIAS)

 António Olaio, 2019

   Tiago Madaleno parte da possibilidade de uma cabeça separada de um corpo. E, sobretudo tratando-se da cabeça de Descartes, será certamente uma cabeça material, mas uma cabeça que não terá na materialidade a sua maior expressão.

  A condição de se separar de um corpo lembra-nos uma materialidade que esquecemos que as nossas cabeças têm, sobretudo se formos filósofos...

   Claro que a uma cabeça sem corpo, corresponderá certamente um corpo sem cabeça, mas vamos deixar esse corpo a pairar algures fora deste texto (mesmo que o assombre, inevitavelmente).

Uma cabeça que, com ou sem corpo, tem na sua memória o facto de Descartes (como nos informa Tiago Madaleno) gostar de a colocar no forno para poder pensar melhor.

  Uma história bizarra e desafiante nas consequências que possa ter no estudo do pensamento de Descartes. Aqui mais ainda, ao assumir outra forma de apresentação, no contexto das artes plásticas.

O artista ao enunciar este facto abre, na sua condição de artista, todo um campo de possibilidades de relação que, uma vez lançadas, são indomáveis no seu alcance.

  Esta exposição é apresentada agora e é, obviamente, na sua experiência actual que se desenvolve a nossa percepção desta história.

   Imaginando uma cabeça num forno, pela nossa experiência com fornos (desde logo a experiência doméstica), imaginamos uma cabeça num pequeno espaço ortogonal.

   Sobretudo tratando-se da cabeça de um filósofo, podemos imaginá-la como um contentor de um pensamento que, sendo aquecido, vê aumentada exponencialmente a tendência de não se conformar a estes limites exíguos. Uma cabeça que, inevitavelmente, irá explodir. 

   Explodirá, lançando os seus pedaços no Espaço, em todas as direções.

   Mas este Espaço tem limites, e esta cabeça expande-se estabilizando ao ser modelada numa forma ortogonal como o forno que a contém (e a detém na sua expansão).

   Lembrando-nos do título desta exposição, podemos dizer que este Espaço é ortogonal como um quarto.

 Felizmente os quartos nas noites de núpcias, desejavelmente orgásticos, ao sê-lo, são ortogonais, mas esquecem-se de que o são.  //